Explosões de carros, casas, bancas de jornais e lançamento de ácidos em plateia de espetáculo teatral compõem os depoimentos dados nesta quarta-feira (21/5/14) à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A audiência pública, solicitada pelo presidente da comissão, deputado Durval Ângelo (PT), teve como objetivo colher relatos sobre atentados cometidos por grupos paramilitares de extrema direita no Estado, como desdobramento do Ciclo de Debates “Resistir Sempre, Ditadura Nunca Mais”, realizado em abril deste ano pelo parlamento mineiro.

Durval Ângelo entregou aos membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Márcio Kameoka e Amanda dos Reis, relatório da CPI realizada em 1980, com mais de 900 páginas. Kameoka agradeceu a contribuição dos participantes e declarou que a CNV não será o “fim do processo”. “Esperamos que os nossos trabalhos possam avançar na busca pela memória”, pontuou.

Já o presidente da Comissão da Verdade em Minas, Antônio Ribeiro Romanelli, disse que há muito a ser revelado, sobretudo com relação à ação do regime militar contra os trabalhadores do campo. Ele informou que a atuação da comissão no Estado ainda se encontra incipiente, mas que já há, para o próximo mês, atividade a ser promovida junto a Universidade Federal de Uberlândia, a fim de apurar fatos relacionados ao tema.

Betinho Duarte, também membro da comissão em Minas, leu lista com nomes de suspeitos de terem cometido os atentados como o de Zé Maria Cachimbinho, segundo Betinho, confesso torturador. Ele requereu a Durval Ângelo a convocação de todos para serem ouvidos na ALMG a fim de obter mais informações sobre os crimes e que, após a coleta de depoimentos, seja feita representação ao Ministério Público.

Depoimentos

Entre os registros efetuados a fim de recuperar os episódios de repressão, Jota D’Ângelo, dramaturgo e ator, falou sobre aquele que foi considerado por ele e demais participantes como o primeiro “atentado terrorista” ocorrido em Minas. Ele conta que, em 17 de novembro de 1965, um espetáculo teatral conhecido como Show Medicina, encenado por alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o propósito de criticar o regime militar, foi marcado pelo lançamento de recipientes com ácido nítrico concentrado. “Durante a peça, havia um ato em que apagávamos a luz. Neste momento foram arremessadas ao palco ampolas com ácido, que acabaram se quebrando também em meio a plateia. A estudante Maria Terezinha Vieira teve o rosto corroído pelo líquido”, ressaltou o expositor.

Jornalistas e diretores de publicações da época que se posicionaram contra a Ditadura também falaram sobre as perseguições e os atentados realizados no Estado. Juarez Rocha Guimarães, ex-diretor do jornal Em Tempo, lembrou três ataques cometidos na sede do periódico na década de 70. Ele relatou dois episódios em que foram instaladas bombas no jornal e um terceiro quando foram derramados cerca de 15 litros de ácido em aparelhos e documentos. Guimarães recordou ainda as constantes ameaças, incluindo o corte de energia em recintos da ALMG, quando justamente prestava depoimento em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI do Terrorismo), instalada em 1980, para apurar os ataques.

Para o integrante do extinto Jornal Movimento, Antônio Luiz Bernardes, a CPI foi “empastelada”, finalizada às pressas justamente por pressão dos responsáveis pelos atentados. No entanto, ele considera a própria abertura da comissão uma conquista histórica, uma vez que, segundo ele, as autoridades policiais não investigavam os crimes cometidos por grupos paramilitares. “Lamento o fim desta CPI, pois ainda ouviria, por exemplo, o notório torturador Nelson Sarmento, que estava disposto a falar”, destacou Bernardes, que enumerou também as ameças sofridas por ele e sua família. “Minas era a capital do terror. Um terço dos atentados, no Brasil, ocorreu no Estado. Das 40 ações criminosas registradas aqui, 11 se tornaram objeto de inquérito policial. Desses processos, apenas dois foram concluídos”, afirmou.

Já Aloísio Morais Martins, um dos fundadores da Revista Circus e do Jornal Vapor, também publicações alternativas à grande imprensa, relatou episódio em que policiais foram a casa de seus pais para apreender exemplares dos periódicos. Ele lembrou a criação do Jornal de De Fato, que chegou a ter 28 edições. “Recebíamos telefonemas de madrugada, nos sentíamos perseguidos”, declarou, ao rememorar invasão da sede do jornal.
Rodrigo Célio de Castro, filho do ex-prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, contou sobre a prisão de seu pai em Juiz de Fora (Zona da Mata). “O general que o julgava passou mal e meu pai saiu do banco dos réus para socorrer o próprio algoz”, afirmou Rodrigo, que lembrou ainda o atentado ao carro do pai, que estava estacionada na porta de um estabelecimento de ensino. “O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) enviava cartas ameaçadoras e numa noite uma bomba explodiu em nossa casa, localizada na Rua do Catete”, lembrou.

Para Heloísa Grego, ativista de direitos humanos e filha de Helena Greco, ícone dos movimentos de resistência à Ditadura, as comissões da verdade devem agir não só para resgatar a memória acerca dos atentados, torturas e demais violações, mas também para punir os responsáveis. Ela denunciou que vários torturadores ainda se encontram na própria estrutura da Polícia Civil. “O terrorismo permanece nas instituições policiais do Estado. Torturador algum no Brasil foi condenado, os documentos do Dops desapareceram e a estratégia do esquecimento tem avançado. Não podemos permitir que essas pessoas continuem impunes”, cobrou.