“É uma casa portuguesa, com certeza!” A frase do clássico fado de Reinaldo Ferreira, eternizado na voz de Amália Rodrigues, vem-me como inspiração, ao avaliar a importante parceria firmada recentemente entre Minas e a cidade portuguesa de Ourém. Durante quase uma semana, tive a oportunidade de acompanhar uma delegação portuguesa em visita às nossas terras em busca de estreitamento dos laços entre os dois lugares, separados por um oceano, mas com muitos pontos em comum, além da relação de amizade que aproxima Brasil e Portugal.

Localizada na freguesia de Fátima, onde foi erguido o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Ourém é rota de um dos principais destinos de peregrinação e turismo religioso do planeta, tendo na religiosidade um forte componente da sua cultura, assim como muitos municípios mineiros. Sem contar que a cidade portuguesa preserva importante patrimônio arquitetônico, no conjunto edificado em torno do Castelo de Ourém, construção com mais de sete séculos de história. Mais um ponto em comum com Minas Gerais.

Foi em Ouro Preto, cidade histórica brasileira mais procurada por turistas, que a delegação viu de perto a alma lusa que permeia a cultura mineira, seja na religiosidade, seja na arquitetura barroca do casario, seja na culinária, profundamente influenciada pelas seculares delícias de além-mar. Não por acaso, um dos compromissos da delegação foi a assinatura, na antiga Vila Rica, de um “termo de irmanamento” entre as duas cidades, assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Ourém (cargo equivalente ao de prefeito), Paulo Fonseca e o prefeito de Ouro Preto, José Leandro Filho. Se já tinham muito em comum, como cidades-irmãs, as duas localidades passam a estar unidas por um laço ainda mais forte: o compromisso de construção bilateral e permanente de intercâmbio e cooperação econômica, social e cultural.

A delegação foi coordenada pelo empresário Casildo Quintino dos Santos – consultor do distrito Ourém-Fátima – e estava composta pelo deputado Antônio Gameiro, da Assembleia Nacional Portuguesa, pelo presidente da Associação Empresarial Ourém-Fátima (Aciso), Francisco Vieira, e por outros empresários e representantes de Ourém. Com a missão de buscar oportunidades de intercâmbio e parcerias em Minas, os portugueses fizeram várias outras visitas. No Palácio da Liberdade, foram recebidos pelo Governador de Minas, Fernando Pimentel e na Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), participaram de reuniões com empresários. Também percorreram aos idílicos jardins do Museu de Inhotim, em Brumadinho e subiram a ladeira do Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, onde tiveram contato com o catolicismo que tanto caracteriza o Estado, outra forte influência portuguesa.

A visita resultou na assinatura de um protocolo de intenções que, sem dúvida, trará mútuos benefícios. O acordo prevê a cooperação técnica entre Minas e Ourém, com vistas à “integração cultural, acadêmica, turística, econômica e desportiva”, por meio de agendas comuns para a elaboração de políticas públicas e troca de experiências entre os dois povos.

Com toda a certeza, há muito know how a ser trocado, com benefícios não somente para Ouro Preto, mas para todas as cidades históricas de Minas, com suas inigualáveis igrejas barrocas. Quase um século após as aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos, hoje, o Santuário de Fátima chega a receber até 7 milhões de turistas por ano. O número representa quase 17% a mais que os 6 milhões de turistas que desembarcaram em todo o Brasil no ano de 2013.

Em contrapartida, foram abertas, também, vastas possibilidades de investimentos brasileiros em solo português e vice-versa. Tanto é que, entre vários projetos apresentados pela delegação portuguesa, as autoridades de Ourém anunciaram a intenção de instalar próximo ao Santuário de Fátima uma “Casa de Minas em Portugal”, onde também funcionaria um centro de distribuição de produtos mineiros. O local foi inicialmente batizado de “Lusiminas”.
Para além de acordos comerciais e culturais, há que se destacar, sobretudo, os laços de afeição entre os dois povos que se fortalecem ainda mais com tal parceria. Como diz o fado de Reinaldo Ferreira, “há fartura de carinho” nos dois lados do oceano e “basta pouco, poucochinho p’ra alegrar”. Passamos a ter em Ourém “uma casa mineira, com certeza”.

*Deputado estadual (PT/MG), líder do Governo na Assembleia Legislativa de Minas Gerais