Autoridades e convidados cobraram, em audiência pública, celeridade nas investigações e nas punições em relação a um atentado contra coordenadores da Escola Família Agrícola de Jacaré, em Itinga (Vale do Jequitinhonha). O crime ocorreu em 1º de abril de 2013. A reunião, nesta sexta-feira (11/4/14), no próprio município, foi promovida pelas Comissões de Direitos Humanos e de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Os presidentes das duas comissões, deputados Durval Ângelo (PT) e André Quintão (PT), respectivamente, estiveram presentes. A reunião contou com grande presença da comunidade, de estudantes e membros de escolas agrícolas.

Os coordenadores da Escola Família Agrícola de Jacaré, Adair da Silva Santos e Noessandro Gonçalves Freire, que atualmente estão afastados da comunidade, relataram que, na noite do atentado, às 20h10, um homem de moto e com capacete disparou um tiro de espingarda contra eles. Ambos estavam no pátio central da instituição e foram atingidos nas costas, sofrendo perfuração perto da clavícula. Após a tentativa de homicídio, eles foram incluídos no Programa de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos e também têm sido acompanhados pelo Núcleo de Atendimento a Vitimas de Crimes Violentos. Atualmente eles se recuperam fisicamente dos ferimentos.

Para Noessandro, que trabalha há 13 anos na escola, não há dúvidas de que o crime ocorreu por motivação política. “Na época, passávamos por um momento de mudança de representantes do poder público municipal e também da diretoria da associação que coordena nossa escola”, disse. Segundo o educador, o atentado foi uma “tentativa de impor nomes” para preencher os cargos que ele e Adair ocupavam. “A escola é um prato cheio para troca de favores políticos. Querem fazer do local um espaço para benefícios próprios”, afirmou.

 

A outra vítima do atentado, Adair da Silva Santos, também deu o seu depoimento durante a audiência pública. Ele contou que trabalha há 16 anos na Escola Família Agrícola de Jacaré. “Acreditamos nesse projeto que dá educação de qualidade aos filhos dos produtores da agricultura familiar”, pontuou. Segundo ele, o crime afetou os familiares de alunos, a comunidade, todos os movimentos sociais, a educação de Minas e do Brasil.

Adair disse, no entanto, que perdoa as pessoas envolvidas no atentado. Mas ressaltou que está abalado psicologicamente com o fato. “Fiquei 20 dias sem querer me comunicar com ninguém. Meu sonho é voltar à escola e rever os alunos, mas não posso por questão de segurança. É triste”, acrescentou. Ele ainda falou que não consegue esquecer “o choro dos alunos” e as lembranças do ferimento que teve no momento do crime. Minutos após sua fala, o educador passou mal e precisou ser levado a um hospital da cidade.

O deputado Durval Ângelo disse que o crime cometido não foi apenas contra Adair e Noessandro, mas contra toda a educação do Vale do Jequitinhonha e do Brasil. “A escola onde as vítimas trabalham é uma referência, reconhecida até internacionalmente”, acrescentou. “A educação é incompatível com qualquer ato de violência, e o diálogo tem que ser a base de qualquer processo educativo”, disse o parlamentar, que também é professor.

Inquérito policial foi instaurado cinco meses depois do crime

Noessandro Gonçalves pediu rapidez na apuração do caso e criticou o fato de o inquérito policial ter sido instaurado somente cinco meses após o crime, bem como a falta de empenho da prefeitura no caso. “As autoridades responsáveis não criam meios para solucionar os fatos. Isso gera revolta”, ressaltou. Ele denunciou, ainda, que a prefeitura não firmou convênio com a escola agrícola neste ano, também por motivações políticas. A falta da verba estaria prejudicando o andamento das atividades.

A delegada de Polícia Civil de Araçuaí, Ana Paula Lamego, é a responsável pelas investigações. Ela disse que tomou posse há um ano e que assumiu o caso apenas em setembro. “Mas as investigações já estavam em curso”, afirmou. A delegada contou que, no começo desta semana, a unidade da Polícia Civil em Itinga, que ficou fechada por cerca de dois anos, foi reaberta. “Isso vai acelerar a conclusão do caso. Agora o município terá um reforço efetivo para ajudar na elucidação do crime”, acredita. Ela apontou o fato de ser uma “investigação complexa”, por se tratar de tentativa de homicídio, como uma outra justificativa da demora para se obter uma resposta final sobre o acontecido.

O prefeito de Itinga, Adhemar Marcos Filho, também respondeu às críticas de Noessandro Gonçalves. Ele pediu a solução do caso à polícia e disse que também quer saber quem é o mandante do crime. Disse, ainda, que Prefeitura e Câmara Municipal não negaram nenhuma assistência. Sobre os convênios, afirmou que já autorizou a Secretaria Municipal de Educação a realizar o processo. “Não serão nos valores solicitados, mas vamos fazer, sim, os convênios”, garantiu.

Ele explicou que a demora para liberação do dinheiro ocorre devido à falta de verba geral da prefeitura. O deputado Durval Ângelo, entretanto, discordou da posição do prefeito. “O dinheiro comprometido com a escola vem do Governo Federal, do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), portanto, não gera gasto nenhum para o município”, contra-argumentou.