Todos nós acompanhamos, na última sexta-feira (4), o dantesco episódio da “condução coercitiva” do ex-presidente Lula. O que ocorreu naquele dia, senão um abuso de poder, um atentado ao Estado de direito, uma encenação midiática e um simulacro de investigação, com tons de regime de exceção?

O objetivo era claro: colocar sob a bota não somente Lula e o PT, mas as forças de esquerda, os movimentos sociais e sindicais, a classe trabalhadora; aqueles que ousaram ameaçar o status quo e possibilitar a promoção social de classes por séculos, exploradas e mantidas à margem da sociedade. Aniquilando Lula, o símbolo da mudança, afastariam o maior empecilho ao projeto das elites de retomar o poder em 2018. E os fins justificariam os meios. Pouco importava se rasgavam a Constituição e atentavam contra a democracia.

A ilegalidade foi flagrante. Por que Lula não foi ouvido na Polícia Federal de São Paulo, mas em Congonhas? A meu ver, não foi mera coincidência a presença do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello no aeroporto. Alguma força maior fez com que a Polícia Federal e o “juiz-justiceiro” recuassem.

O plano era prender Lula e levá-lo para Curitiba, mesmo sem embasamento legal sequer para a tal “condução coercitiva”, que deve ser precedida de intimação para comparecimento espontâneo. Sem contar que o ex-presidente já havia prestado três depoimentos, anteriormente, de boa vontade. O que ocorreu, portanto, não passou de sequestro. Bem diferente de investigações anteriores, de crimes graves, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi ouvido mais de uma vez, todas no conforto do seu lar.

Não é preciso ser expert para enxergar o ilícito, mas as críticas dos grandes juristas e pensadores deste país corroboram tal constatação. “Pior ditadura é a ditadura do Judiciário… Não se avança culturalmente debaixo de vara”, alertou, indignado, o ministro Marco Aurélio Mello, ao apontar a total ausência de justificativas legais. Já o renomado jurista Fábio Konder Comparato classificou a ação como “um abuso manifesto” e lamentou: “O Estado de direito está em frangalhos”.

A dura realidade é que está em curso uma tentativa de golpe neste país, sob um discurso hipócrita de moralização que, absolutamente, não corresponde à prática. O cenário “nonsense” me lembra a “razão cínica” de que trata o filósofo alemão Peter Sloterdijk. Dominada por uma “falsa consciência ilustrada”, nossa sociedade passou a viver sob a égide de um “cinismo universal difuso”. Cinismo que tem como gestores justamente os representantes dos ideais modernos de liberdade: o Estado – neste caso, os setores do Judiciário e a Polícia Federal –, intelectuais, partidos políticos e formadores de opinião, aqui, sobretudo, a “Vênus Platinada” Rede Globo. Razão cínica, muitas vezes, não detectável, ao borrar as marcas entre liberdade e domesticação. Forjando uma realidade, ela nos oferece o caminho da salvação sob o marketing da honestidade, da virtude e da transparência.

Artigo do deputado Durval Ângelo publicado no Jornal O Tempo